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Atualizado: 5 de set. de 2020

Quando falamos dos nossos sonhos, das esperanças e do desespero ao ver nossos projetos inviabilizados, estamos falando de algo que não existe, mas que, no entanto, poderia ter sido.



A expressão "meu sonho" significa meus projetos de vida, planos, desejos, aquilo que, de alguma forma, antecipo como já fazendo parte da minha vida. Em certa medida, como algo que gostaria que fosse real. Ser sonhador é uma característica fundamentalmente humana, por isso, essa característica nos distingue de todos os outros seres vivos. E ser sonhador é possível porque somos dotados de linguagem.

"O falar é uma forma de comunicação, mas não é só isso, é muito mais. A peculiaridade que caracteriza o falar consiste no fato de que, enquanto as outras formas de comunicação mostram o que existe, e apenas isso, o falar pode mostrar o que não existe. As abelhas comunicam umas para as outras onde estão as flores. Mas elas não falam das flores do próximo ano. Elas não falam do que ainda não veio nem do que já foi"

Por isso que o instrumento de trabalho do psicólogo é a palavra/escuta. Passado, presente e futuro dançam e se entrelaçam em busca de sentido, ou seja, estão intrinsecamente ligados, pois diz da peculiaridade existencial de cada um. Somos capazes de desejar ou temer algo no futuro.


Mas também tornamos presente aquilo que existiu, para que possamos preservar o passado: Tiramos fotos, filmamos, contamos ou apenas lembramos. Essas memórias são habitadas de afetividade. Nessa articulação entre passado, presente e futuro vamos costurando as experiências, os sonhos, os medos e unindo os fios. O desenho da vida concreta e real.


Perceber a vida real pode ser profundamente doloroso. E quando isso acontece nos recusamos em tecer a trama. Tudo se perde e nos enrolamos nos fios. Tudo aparece de forma emaranhada, desconexa.


É aí a nascente da culpa.


É aquela raiva em ver que as esperanças se transformaram em decepção, pois esse desfecho decepcionante não fazia parte do sonho, do meu projeto futuro. Esse desfecho aparece como um intruso.


Não tinha espaço para isso.


E como cuidar de juntar todo esse vazio que sobrou?

Se não era para acontecer como estava previsto, por que então me enganei tanto?


Nessa hora surge uma dificuldade em aceitar aquilo que se tornou real. Nessa recusa ou não-aceitação recusamos também a tarefa de tecelão da nossa própria história. O inesperado, habitualmente, é indesejado ao chegar. Traz consigo o desconforto incontrolável da existência humana. Nos mostra que não temos tanto controle assim da vida e do desfecho das situações que acontecem. Nos coloca em um lugar de vulnerabilidade, nos sentimos despidos e expostos às intempéries da vida concreta.


O que chega se faz presente e se impõe.


O inesperado chega rasgando nossa existência e cria o seu próprio lugar. Mesmo quando o que chega inesperadamente é bom. Precisamos de um tempo para nos familiarizarmos, pois não era esperado, sonhado. Não tinha um lugar reservado. Precisamos, portanto, acolher o inesperado. Mas, nessa tentativa de acolhimento do inesperado mostra-se cada vez mais evidente seu caráter impertinente e inconveniente.

"Embora os seres humanos tenham seus desejos ou sonhos como referências que organizam suas ações, não podemos negar a experiência humana que consiste na morte dos sonhos. Um sonho morre porque já se realizou, e, então, não é mais sonho; ele se retrai, oferecendo espaço para a realidade. Enfim, sonhos morrem; a realidade ocupa o lugar que foi deles. Os homens são mortais, e os sonhos humanos também são mortais"

Podemos, com essa experiência, ter medo de voltar a sonhar. Mas, se assim o fizermos deixamos de ter a característica fundamentalmente humana:


De ser Sonhador!


Não ter garantia da viabilidade dos nossos sonhos pode ser frustrante. Mesmo sem garantia, porém, para ser fiel a si mesmo, para viver de forma autêntica, como protagonista da própria história, precisamos realizar a parte que nos cabe. E é nesse constante movimento que vivemos. Sonhamos, realizamos sonhos, vemos morrer alguns, costuramos tudo isso formando um tecido que é a história de cada um.


O sacrifício do sonho mostra a gritante condição própria do ser humano: fecundar a realidade com os seus sonhos e ao mesmo tempo servir de terra a ser fecundada pela realidade.


Mas, qual o sentido disso? Por que essa contradição?


Porque essa é a condição própria dos humanos. O húmus, terra fértil que acolhe as sementes que caem sem controle, sem aviso prévio.


Por isso, carregar um sonho morto pode ser absolutamente pesado.


Referência: Pompeia; Sapienza. Os dois nascimentos do homem. In: Sacrifício do sonho. 2011.


Cyntia Regina de Oliveira Yamauchi

Psicóloga - CRP: 06/131198