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A ponte - Franz Kafka

Atualizado: 12 de abr. de 2018

“Frio. Inflexível. Nenhum mapa indica a minha localização. Assim, permaneço. Espero, devo esperar...”


A parábola “A ponte”, de Fraz Kafka, narrada em primeira pessoa é uma metáfora na qual o narrador é um ser ambíguo que é, ao mesmo tempo, ponte e ser humano. A narração dessa situação é marcada, sempre, por tensões, por cisões. A ponte antropomórfica possui características tanto do gênero feminino, como do gênero masculino ressaltando a ambiguidade dentro de cada um dos polos dessa cisão homem/ponte. Além disso, em termos de utilidade, a construção é paradoxal, pois como ponte, jamais, até o desfecho, foi utilizada para uma travessia e sequer consta no mapa. A relação do único caminhante com a ponte é também ambígua, pois ao mesmo tempo em que finalmente dá utilidade à ponte é, também, o germe de sua destruição. Essa destruição é apontada pelo narrador como a única forma de deixar de ser ponte, ou seja, um caminho sem retorno.


O início do texto nos dá pistas de como se dá essa ambiguidade:

“Eu estava rígido e frio, era uma ponte, estendido sobre um abismo. As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas. Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não estava assinalada nos mapas. Assim eu estava estendido e esperava, tinha de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem desabar.”

O enredo do texto permite que este seja utilizado como metáfora de um indivíduo mentalmente cindido e que nos remete ao conceito de esquizofrenia, mesmo que, o fato narrado possa ser especulado como um simples pesadelo – ou um delírio onírico ocorrido após a turvação de consciência.

Segundo Dalgalarrondo (2008, p. 327):

“As síndromes psicóticas caracterizam-se por sintomas típicos como alucinações e delírios, pensamento desorganizado e comportamento claramente bizarro (...)”

Tomando o termo esquizofrenia pela sua origem, poderíamos asseverar que o narrador se coloca como uma ligação, mesmo que fraca, entre dois territórios separados por um abismo. Dessa forma, a ponte “humana” seria uma tentativa tênue de encobrimento de uma cisão permanente entre corpo e alma, como sugere o termo a partir de sua origem grega e conforme descrito por Breuler. O único final possível, para o narrador, é o desabamento que significa sua morte psíquica ou a cisão definitiva entre o seu pensamento e a sua emoção.

A confusão mental relativa à situação temporal:


“Certa vez, era pelo anoitecer – o primeiro, o milésimo, não sei -, meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo”

Esse trecho parece nos remeter ao conceito de desorientação delirante, conforme apontado por Dalgalarrondo. Ocorre em indivíduos que se encontram imersos em profundo estado delirante, vivenciando ideias delirantes muito intensas, crendo com convicção plena que estão “habitando” o lugar e/ou tempo...”. Pensamentos confusos e em círculo poderiam sugerir, bem como a desorientação temporal, a característica de pensamento dereístico, conforme Dalagalarrondo:

“O pensamento dito dereístico, algo semelhante ao pensamento mágico, é um tipo de pensamento que se opõe marcadamente ao pensamento realista, o qual se submete à lógica e à realidade. (...)”

O caminhante, importante para o desfecho da parábola, interage de uma forma violenta alterando a disposição do ser ponte, cutucando-o com uma bengala, para depois saltar sobre o seu corpo desencadeando o desmoronamento com o significado de morte do sujeito/objeto.


No trecho final:

“(...) E virei-me para vê-lo. – Uma ponte que dá voltas! Eu ainda não tinha me virado e já estava caindo, desabei, já estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que sempre me haviam fitado tão pacificamente da água enfurecida.”

É possível notar o movimento em contraponto ao “estar rígido e frio” do início, bem como a atribuição de características humanas aos outros objetos inanimados que formam o ambiente da história. O desfecho trágico já apontado no início do conto pode sugerir um delírio niilista já que há uma credulidade no desabamento como fim único da ponte. Considerando a íntegra do conto, podemos considerar a narração, como um todo, um delírio fantástico ou mitomaníaco, conforme descreve Dalgalarrondo:

“O indivíduo descreve histórias fantásticas com convicção plena, sem qualquer crítica. Esse tipo de delírio é notável pelas histórias e narrativas fabulosas, totalmente irreais, e pelas descrições que se assemelham a contos fantásticos, ricos em detalhes e francamente inverossímeis"

Sendo assim, essa breve análise ou aproximação, deixa clara a imensa gama de conteúdo possível de ser extraída a partir da análise de textos literários e para que se possa fazer pensar a Psicopatologia além da aplicação de manuais de categorização baseados em critérios que atendem mais aos interesses de determinados grupos do que ao portador de sofrimento psíquico. Não esquecendo, claro, que não se deve tomar o autor pela obra e tampouco limitar a análise da obra a enquadramentos que não possam ser rediscutidos ou ampliados conceitualmente. A riqueza da literatura permite o exercício de se repensar a psicopatologia, esta ainda permeada pelos enquadramentos tecnicistas e binaristas que precisam ser reavaliados tendo em vista o indivíduo na sua totalidade.


Psicóloga - Cyntia Regina de Oliveira Yamauchi


REFERÊNCIAS:

DALGALARRONDO, Paulo. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, p.438, 2008.

KAFKA, Franz. Franz Kafka Essencial. São Paulo: Penguin Classics, Companhia das Letras, p.296, 2011.